Logo o domingo chegou. Almocei cedo, separei algumas folhas, lápis e uns dados que eu tinha comprado anos atrás por achar eles legais (a maioria de 10 faces, e uns poucos de outros tamanhos). Saí de casa, peguei um ônibus e cheguei na graminha da facul meia hora antes do combinado.

Dessa vez, a primeira a chegar foi Bárbara. Ela estava com uma saia na altura dos joelhos, preta, all-star preto, e mini-blusa branca com um desenho de alguma animação japonesa. Como estávamos só nós dois, fui puxando assunto:

— E então, o que você faz aqui na Universidade?

— Eu curso Design, tou no primeiro período! E você?

— Faço Desenvolvimento de Jogos, também estou no primeiro período.

— Ah, legal! Quer dizer que você gosta de videogame, hein?

— Hehehe, gosto sim! Jogo desde pequeno, embora tenha passado uns anos mais parado, mas nunca totalmente. E sempre tive vontade de fazer meus próprios jogos.

— Eu jogo de vez em quando.

— Eita, muito bom!

E conversamos mais alguns minutos sobre jogos recentes que ela tinha jogado, até que o Gary chegou e começamos a fazer nossas fichas. Fomos pro livro escolher raças e classes de personagens. Acabei me decidindo por um elfo druida, com capacidades curativas. Bárbara escolheu uma elfa guerreira, com direito a usar uma imensa espada. Logo Sean e Ju chegaram, ele escolheu um anão bárbaro, e ela um humano arqueiro. Tínhamos um grupo. Dividimos nossos atributos direitinho, sob orientação do Gary. Ele me sugeriu colocar bons pontos em magia, porque mesmo sendo um druida, depois eu poderia aprender algumas magias úteis, mesmo que defensivas, e eu seria um dos únicos capazes. Bárbara poderia aprender algo também, por causa de seu sangue élfico, como o meu. Mas minha classe é bem mais favorável. Ju, com muita dificuldade, e Sean de maneira alguma.

Nomeamos nossos personagens da seguinte forma:

· Max – elfo druida: Halfelas

· Bárbara – elfa guerreira: Talindra

· Julianne – humano arqueiro: Badrorn

· Sean – anão bárbaro: Dwaïn Hogroth

E Gary começou a narração:

“O vilarejo de Raan ultimamente anda sendo pilhado por uma horda impiedosa de orcs. Duas vezes no último mês casas foram destruídas, e saqueadas, e alguns habitantes foram mortos, incluindo mulheres e crianças. A vila é de pescadores e agricultores, então não há combatentes habilidosos para proteger a cidade dos ataques. Um conselho de habitantes decidiu juntar suas moedas de ouro e contratar alguns guerreiros que queiram proteger a cidade.”

Ele tinha pedido pra nós quatro encontrarmos motivos para querermos dinheiro. Cada um revelou apenas a Gary seu motivo. Eu disse que o grupo de elfos da floresta do qual faço parte está desaparecendo. Existem cada vez menos elfos, e eu decidi sair pelo mundo em busca de conhecimento para descobrir a causa de nossa iminente extinção. Mas, como não sabia por onde começar, decidi me aventurar como caçador de recompensas, visando conhecer pessoas e lugares que pudessem me auxiliar.

“Desta forma, interessados em moedas de ouro, vocês quatro procuraram o responsável pela oferta, em Raan. Ele marcou de reunir os quatro ao entardecer.”

Desse ponto Gary continuou narrando os problemas da vila, nos encontramos e fomos à caça dos orcs. Tivemos que nos informar com várias pessoas sobre seu paradeiro, até que encontramos um acampamento com cerca de dez orcs. Eram muitos para um grupo tão pequeno e inexperiente como o nosso, ainda mais levando em conta que um dos membros (no caso meu personagem) não é combatente. Tivemos que planejar alguma estratégia. Conseguimos um cavalo com os habitantes da cidade, e Badrorn era o mais indicado para cavalgar, pois podia atirar flechas enquanto andava (embora para o jogador isso significasse que ele tinha que obter bons e difíceis sucessos nos dados).

Dessa forma, organizamos uma armadilha. Decidimos que Badrorn apareceria de surpresa no acampamento e faria alguma confusão. Como ele era apenas um, supusemos que apenas alguns orcs o iriam perseguir. Quando eles saíssem, Talindra e Dwaïn atacariam impiedosamente os orcs restantes, enquanto eu os curaria conforme fossem se ferindo. Badrorn atiraria flechas nos seus perseguidores e depois de alguns minutos voltaria ao acampamento, onde supostamente (novamente) nós teríamos derrotados os outros e poderíamos ajudá-lo a matar os orcs restantes.

Era um plano bem arriscado, mas foi o único que conseguimos bolar. E logo o pusemos em prática. Badrorn montou no cavalo com estilo, empunhou seu arco e seguiu em direção ao acampamento orc. Alvejou um no braço e saltou com o cavalo por sobre outro, acertando nele com as ferraduras. Os orcs gritaram e cinco começaram a persegui-lo. Os dois feridos ficaram, juntamente com três intactos. Quando os primeiros sumiram, nós aparecemos. Talindra girava sua espada furiosamente e Dwaïn era um verdadeiro monstro. Apesar de sua estatura reduzida, saltava com seu machado dilacerando pedaços de orc para todos os lados. Logo eles derrotaram os cinco, e eu precisei usar minha magia apenas uma vez, em Talindra. Badrorn não teve a mesma sorte. O mestre nos surpreendeu usando um orc que também era arqueiro, e conseguiu acertar duas flechas em nosso companheiro, que tinha conseguido derrotar apenas um dos seus perseguidores e agora estava com o braço impossibilitado de atirar, quando chegaram todos ao acampamento. Apressei-me a curar nosso amigo ferido, enquanto Talindra e Dwaïn atacavam os orcs. Dwaïn levou também duas flechadas antes de conseguir enterrar seu machado na cabeça do maldito orc arqueiro.

Afinal, conseguimos vencer o bando, mas como eu demorava alguns turnos para poder novamente curar as pessoas, Dwaïn e Talindra estavam muito feridos ao final. Mas ficamos felizes por nossa primeira vitória. Conseguimos o ouro e, satisfeitos pelos bons frutos da união de nossas forças, decidimos andar por aí à busca de recompensas como essa (claro que Gary deu um empurrãozinho nesse sentido, hehehe).

Assim acabou nossa primeira partida. Já estava escurecendo quando nos despedimos e fomos cada um pra sua casa. Eu saí muito feliz e animado pela partida excelente! Como tinha sido legal, nossa!

Então combinei com Gary, meu mais recente colega, de buscar jogadores de RPG pela Universidade. Não era uma tarefa nada fácil, devo dizer!

Resolvi ficar meia hora após as aulas rodando pelo campus procurando pessoas que tivessem, sei lá, cara de RPGista! Variei bastante minhas táticas. Passeava um dia pela área de exatas, outro pela de humanas, outro por saúde. Depois decidi ficar sentado num banco que ficava bem na passagem, folheando ilustrações de RPG que eu tinha impresso no meu PC.

Essa última abordagem foi um pouco mais bem-sucedida que ficar rodando a esmo. Mas não suficientemente bem-sucedida. Muita gente passava olhando, mas quando eu olhava de volta e começava a sorrir, se apressavam, ou viravam a cara. Nunca sorriam de volta ou se interessavam.

Também experimentei sentar em bancos com pessoas neles e folhear as ilustrações, para ver se gerava algum interesse. Mas nada. Depois de alguns dias, Gary me ligou e disse que tinha conhecido uma garota e que ela tinha topado jogar conosco, e que bastava encontrarmos uma quarta pessoa e já daria pra jogar.

Após uma semana e meia de busca, eu já estava desistindo. Pensei que Gary poderia encontrar alguém ele mesmo. Sentei-me num banco entre uma aula e outra, pois eu tinha meia hora sobrando. Nem me dei ao trabalho de folhear as ilustrações.

Então, sentou-se ao meu lado uma garota com longos cabelos ondulados, de um louro escuro. Sua pele era branco-amarelada e tinha belos olhos cor-de-mel. Quando dei por mim, ela usava uma blusa preta e tinha escrito em branco “Mulher também joga RPG”!!! Tinha uma jogadora de RPG bem ali do meu lado!!!

Olhei pra ela, mas fiquei com vergonha de começar um papo. Então peguei as ilustrações e comecei a folheá-las aleatoriamente. Meu intento teve sucesso, pois ela falou comigo:

— Oi, você joga RPG?

— Jogo sim. Digo, estou começando agora. Dá pra ver pela blusa que você também joga, né?

— É, jogo. Tou meio parada, mas jogo.

— Ahh... Mas não quer voltar?

— Como assim?

— É que... estamos montando um grupo e precisamos de gente. Não tá afim?

— Eita! Sério? E vocês vão jogar o que???

— A princípio, Medieval Land. Depois pode ser que joguemos outras coisas.

— Medieval Land? Putz, eu tou doida pra jogar a nova edição! É a nova?

— É sim.

— Tou dentro! Meu nome é Bárbara, e o seu?

— Max!

Trocamos telefones e fomos, cada um para sua aula.

À noite liguei pro Gary e ele me disse que tinha encontrado mais um cara. E ficou feliz quando contei da Bárbara.

— Putz! Duas mulheres numa mesa de cinco? Cara, isso é muito raro, tou falando!

— Hehehe, imagino.

Marcamos de nos encontrarmos no final da tarde do dia seguinte, que era uma sexta-feira, para todos se conhecerem e agendarmos algo. Liguei pra Bárbara avisando. A voz dela era bonita ao telefone.

Então no outro dia, às 17:15 (tínhamos combinado 17:30), eu cheguei num gramado sob duas árvores por trás de um dos blocos de Engenharia Civil. Alguns minutos depois, chegou uma garota baixa, magrinha e loira. Sorriu pra mim e se sentou.

— Você é o Max?

— Sou sim. Você é a...

— Julianne, prazer.

Trocamos dois beijinhos nas faces e nem pude perguntar nada porque Gary chegou logo em seguida.

— Opa, já vi que se conheceram.

— É, o Max parece legal.

Que comentário estranho. A garota me pareceu meio maluca, mas divertida.

Com cinco minutos de atraso, Bárbara apareceu. Estava novamente com a blusa com a qual a conheci, dessa vez de propósito, penso eu, para mostrar ao pessoal, hehehe.

— Gary, Julianne, essa é a Bárbara.

— Olááá, que bom ter outra garota por aqui, hein? Pode me chamar de Ju, viu?

— Pois é, garotas também jogam RPG, tá vendo? — mostrando a blusa enquanto falava.

Vinte minutos depois, já achávamos que o cara não ia aparecer, e ele chegou, bem calmo, como se estivesse no horário. Gary foi logo apresentando:

— Pessoal, esse é o Sean. Sean, esses são Max, Julianne e Bárbara.

O tal Sean era alto, muito magro, estava todo de preto, usava óculos e tinha cabelo escuro, curto. Gary estava novamente de boné, ele parecia gostar.

Conversamos meia hora sobre o jogo. Gary seria nosso mestre e todos estávamos empolgados. Sean e Bárbara já tinham jogado antes, mas eu e Julianne não. Seríamos estreantes. Mas Gary dizia o tempo todo que era simples. Todos estávamos ansiosos, então acertamos de começar no domingo à tarde, nesse mesmo local, pois a graminha era confortável.

Nos despedimos e fomos embora. Eu estava empolgado. Parecia uma excelente oportunidade de fazer amigos. Todo o pessoal me pareceu simpático. A Julianne meio maluquinha, e o Sean meio caladão. Mas o Gary é bem legal e Bárbara também. Eu não via a hora de começar a jogar.

E então as aulas começaram. Algumas bastante interessantes, outras um pouco menos. Mas eu estava deveras entusiasmado com o curso e não perdia um minuto de nenhuma aula. Como na época de colégio, gostava de chegar com uma boa antecedência, normalmente de vinte minutos a meia hora. Aproveitava esse tempo para ler avisos, propagandas e notícias pelos blocos.

E assim se passaram as duas primeiras semanas dessa nova fase da minha vida. No sábado seguinte, antes do almoço, telefonei para Michelle.

— Oi, Mi!

— Max!! Que saudades! Nem me liga, né?

— Ué, não estou ligando?

— É, depois de duuuuasss semanas de aula!!! Duas!!

— Ah, desculpa! Acabei me empolgando com o curso!

— Que ótimo! Então você tá gostando mesmo?

— Tou sim! Tem uma ou outra disciplina menos interessante, mas no geral tou achando o máximo! Mas e você, se dando bem?

— Sim, sim! As disciplinas estão divertidas também! Mas, ei! O que você vai fazer mais tarde?

— Humm, ia só dar uma navegada pela net. Por quê?

— Então umas quatro eu passo aí pra te pegar.

— Opa! Pra ir pra onde?

— Ah, sei lá, rodar no shopping, cinema, qualquer coisa é melhor do que ficar em casa! E eu tou com saudades de você!

— Então combinado! Até mais, Mi!

— Beijo, Maxie!

— Outro.

E assim arrumei programa pro sábado à tarde.

Quatro e quinze, Michelle buzinou. Beijei o rosto de mãe e saí. Ela tava de jeans e uma blusa preta bem bonita. Exibia um óculos escuro novo e que parecia ter sido caro.

Entrei no carro e ela me abraçou loucamente!

— Poxa, Max! Faz um tempão que a gente não se vê! Preciso te contar uns babados! Mas a gente conversa no shopps!

— Ok!

Logo chegamos no shopping, sentamos na praça com imensos sorvetes à nossa frente e ela desandou a falar pelos cotovelos:

— Max, você não sabe da maior! Lá fui eu toda animada pra primeira aula de Introdução ao Estudo Veterinário, e quando eu entro na sala, um carinha alto, musculoso e bonitão tasca logo os olhos em mim. Sabe aqueles bem bobos? Bem, burro ele não é tanto pois passou no vestibular. Mas é meio retardado! Não consegue tirar os olhos de mim, não sabe disfarçar nada! Quando foi anteontem, eu saindo da aula apressada, ele vem atrás de mim.


— Michelle?

— Hum?

— Podemos conversar?

— Agora?

— É, eu serei rápido.

— Tá, pode dizer então.

— Não podemos sentar?

Então nos sentamos num banco bem desconfortável e ele falou:

— Então, é que desde o primeiro dia de aula te achei bem gata.

— Como é seu nome mesmo?

— Robert, mas pode me chamar de Robbie.

— Ok, Robbie. Então você disse que sou uma gata. E?

— Bem, eu pensei que talvez pudéssemos sair essa sexta.

— Sair??

— É, vai ter uma festa lá no distrito!

— Ah... bem, é que... dessa vez não vai dar. Deixamos pra outra, ok?

Robbie pareceu desanimado e eu fui logo saindo de cena:

— Agora eu tenho que ir. Até segunda!


— E agora, Max?

Eu só conseguia achar divertida a forma como ela tratara o carinha.

— Você tá rindo, Max??

— Hehehe, foi mal! É que o cara deve ter ficado triste, você o tratou como um ninguém!

— Mas, Max! Ele É um ninguém!

— Hahaha! Eu sei, eu sei. Mas mesmo o cara sendo meio mané e sem-noção, você não pode tratá-lo assim tão mal.

— Por que não?

— Você gostaria que alguém em quem você tivesse interessado te tratasse dessa forma?

— Mas eu não sou imbecil como ele!

— Eu não estou dizendo isso. Gostaria ou não?

— É, acho que não.

— Então o chame para conversar essa semana e diga a ele que não tem interesse. É melhor do que ele ficar pensando que tem chances ou então ficar levando toco seu o tempo todo!

— Humm. É, acho que você está certo, Maxie!

Vimos uma comédia romântica no cinema, comemos batata recheada e depois Mi me deixou em casa.

Na segunda seguinte, não tive a primeira aula. E tinha que esperar pela segunda, então fui dar uma volta pelo campus. Resolvi sentar em um banco e observar as pessoas. De repente, eu até encontrava uma menina bonita. Então, notei um cara de boné com uma camisa preta com um dragão. Ele estava entretido olhando um livro grande.

Disfarçadamente (ou o melhor que pude fazer nesse sentido) observei um tempo ele folhear aquele livro, até que desconfiei se tratar de um manual de RPG. Como eu realmente não disfarço bem, ele percebeu que o olhava e veio até mim.

— Opa, cara! Cê joga RPG?

— Eu? N-não, não. Digo, nunca joguei.

Ele se sentou ao meu lado e continuou a conversa.

— Esse aqui é o manual novo de Medieval Land, já viu?

— Ouvi falar. Posso ver?

— Claro, olha aí!

Devo ter passado uns vinte minutos deliciando-me com as páginas daquele livro, todas coloridas e cheias de desenhos fantásticos. Li por cima algumas coisas, e tudo aquilo parecia ser bem bacana!

— Eu tou procurando gente pra jogar, você não tem uma turma interessada?

— Ah... na verdade não.

— Então o que acha da gente procurar uma galera pra começar umas mesas?

— É?

— Topa?

Refleti uns instantes sobre essa possibilidade e percebi que poderia ser a vida me dando um novo rumo. E esse rumo parecia bem interessante.

— Eu topo sim!

— Beleza! Eu me chamo Garrison, mas pode me chamar de Gary.

— Max!

— Prazer, Max.

Então eu e Gary trocamos telefones e ficamos de buscar por aí pessoas interessadas em RPG. Não que eu tenha muito... tato para falar com desconhecidos do nada, mas não custava tentar. Isso poderia ser legal!

No primeiro dia de aula da universidade, acordei cedíssimo. Aliás, praticamente não preguei os olhos. Fiquei a noite toda imaginando quem seriam meus colegas, se os professores seriam legais, como seriam as disciplinas, o assunto, etc. Acordei, tomei uma ducha, escolhi uma roupa legal (reparem no verbo “escolher”, eu raramente escolho uma roupa, sempre pego a primeira que surge no guarda-roupa), peguei um caderno e uma caneta e fui pra universidade de ônibus.

Cheguei faltando meia hora para o início da primeira aula e fiquei rodando pelo bloco, conhecendo as salas, as placas, etc. Dez minutos antes, eu estava na porta da sala. Já tinha um cara parado na porta, provavelmente outro aluno. Tinha os cabelos loiros e compridos, e sua boca parecia não comportar todos os seus dentes, visto que alguns se espremiam para fora, em busca de espaço. Estava ouvindo algo no fone de ouvido e nem sequer pareceu notar minha presença, embora eu creia que deva ter notado, uma vez que eu estava muito perto. Acho que apenas não deu bola.

Logo depois, começou a chegar gente: duas meninas conversando alegremente sobre o que parecia ser um desenho; um cara muito alto de óculos escuro; um menino completamente nerd, de óculos com muito grau e tudo; e mais um monte de gente. Depois chegou um rapaz de blusa social e aspecto bastante elegante. Ele sorriu para todo mundo, pregou um papel na porta e falou em voz alta:

— Muito bem! Alunos de Desenvolvimento de Jogos, a aula de hoje será no auditório. Para quem não sabe onde fica, sigam-me.

Então fomos todos, umas vinte e poucas pessoas, seguindo o cara, que tava dando pinta de ser nosso professor. Era bastante jovem, ou ao menos parecia ser. Após alguns lances de escada, chegamos ao último andar e entramos num auditório bem bacana, com cadeiras confortáveis, infra-estrutura legal, etc.

Quinze minutos depois (e alguns alunos atrasados também), o professor pegou um microfone e começou a falar:

— Bom dia! Meu nome é Martin Rummery e eu sou o coordenador do curso de Desenvolvimento de Jogos. Hoje não teremos aula, eu darei apenas uma palestra sobre o curso. Apresentarei a vocês as disciplinas, as possíveis áreas de atuação e as oportunidades de bolsas que poderão surgir nos próximos períodos.

Ele é bem novo para ser coordenador!

— O curso tem apenas seis anos de existência e conta com um quadro de dezesseis professores, que se desdobram para ministrar a vocês todas as disciplinas necessárias para a formação. Durante o primeiro ano vocês verão disciplinas do básico, ou seja, que vão apresentar a área, dar uma idéia do que poderá vir pela frente, além de assuntos básicos, como matemática e física, importantes para certas áreas. No segundo ano, vocês terão uma introdução a cada uma das áreas distintas do curso, pois é importante que tenham um entendimento completo do desenvolvimento de um jogo. No terceiro ano vocês se especializarão na área que escolherem. E, por fim, no quarto ano serão definidas equipes com integrantes de todas as áreas, e cada equipe passará o ano trabalhando no desenvolvimento de um jogo, sob supervisão direta dos professores.

Uau! Que máximo! Parece demais esse curso! Acho que fiz a escolha correta!!

O professor Martin passou mais uma hora mostrando slides no datashow sobre jogos, o curso, possibilidades, as áreas distintas, etc. Fiquei realmente interessado!! Ainda não sei que área vou escolher, mas há várias promissoras.

Em seguida, ele pediu para cada um dos alunos se apresentar. Fiquei nervoso, e ouvindo os nomes dos alunos e de onde tinham vindo. Alguns eram de cidades vizinhas e um ou outro de cidades bem distantes. Chegou a minha vez:

— Olá! Meu nome é Maxwell, mas prefiro que me chamem de Max. Sou daqui mesmo!

Logo estávamos livres e só teríamos aula no dia seguinte! Dei uma volta pela Universidade, pra conhecer melhor. Então me sentei num banco, sob a sombra de uma árvore frondosa, para descansar e refletir sobre a minha nova vida.

As coisas eram muito diferentes agora. Não havia nem haveria mais Nicole. Eu estava à busca de outra garota. Não havia mais Jamie e Cleve, minhas fantasias de adolescência. Agora havia Michelle, minha amiga de verdade! E havia uma gama de possibilidades pela frente. Eu conheceria novas pessoas, estaria caminhando para a profissão que viria a me guiar pela vida.

Aos poucos percebi o quanto eu tinha mudado nos últimos três anos. Para citar um exemplo, praticamente não vejo mais filmes de luta! Eu era viciado, e o Bruce Willis era meu ídolo. Agora eu vejo romances, dramas, comédias, mas poucos filmes de luta andam me atraindo. Também perdi completamente o interesse no basquete e na NBA. Raramente vejo um jogo. É curiosa essa mudança. Se foi por causa de Nicole ou apenas amadurecimento mesmo, não posso saber.

Três dias após o Natal, acordei tarde e fui ver se tinha chegado alguma carta, como tinha se tornado meu hábito nas últimas semanas. Ao abrir a caixa de correio, fiquei paralisado observando aquele envelope azulado no qual eu já estava reconhecendo a caligrafia de Nicole.

Minha mãe tinha saído, então abri o envelope na sala e pus-me a ler.


Caro Max,


Não sei o que lhe dizer. Demorei a responder pensando nas palavras adequadas para me explicar. Eu quero dizer que sinto muito. Sinto muito mesmo. Jamais pensei que você sofresse dessa forma. Eu por um instante desconfiei que você gostasse de mim, mas como você negou, eu acreditei.

Sempre te tratei como um grande amigo, um irmão. Mas não passou disso. Posso ter te dado intimidades, mas porque achei que poderia fazer isso como se estivesse com um irmão.

Não se arrependa do que não fez. Não teria dado certo algo entre nós, pois somos muito diferentes. Você é um rapaz muito doce e merece uma garota igualmente suave. Eu sou muito direta e gosto de curtir os prazeres da vida.

Então eu quero que você saiba que jamais foi minha intenção te magoar e sequer passava pela minha cabeça que você gostasse tanto de mim. Peço que pense em outras coisas, curta mais a vida. Tenho certeza que uma garota legal vai aparecer no seu caminho, você vai ver!


Beijos,


Nicole


Fim. É, terminou aí a carta dela. Nunca. Ela nunca gostou de mim. Nunca. Irmão... Irmão!!!

Deixei que lágrimas escorressem de meu rosto enquanto eu pairava de joelhos no tapete da sala, com o envelope azulado numa mão e a carta do mesmo tipo de papel na outra.

Uma meia hora depois percebi que mãe poderia chegar a qualquer momento para o almoço e me levantei, guardei a carta no quarto, lavei meu rosto e deitei um pouco na minha cama.

Refleti alguns instantes, mais calmamente, sobre as palavras escritas à mão naquela carta. Concluí então que ela pode ter mentido. É isso! Ela disse que não sentiu nada por mim e que sempre pensou em mim como um irmão unicamente para que eu não me arrependesse do que deixei de fazer. Boa tentativa, Nic. Não funcionou...

É isso. Nada feito. Quase três anos dedicados a ela para receber nada em troca. A vida é assim. Foi uma ótima experiência amá-la. Mas eu queria ser correspondido. Realmente queria.

Nos dias que se seguiram eu me encontrei com Mi uma vez, na primeira semana do novo ano, e a contei da carta. Ela não disse muita coisa, só reforçou que eu merecia alguém melhor.

Resolvi também acabar de uma vez por todas com essa brincadeira que me acompanhou desde o início da adolescência e que nunca revelei a ninguém. Chega de Jamie. Chega de Cleve. Não preciso fingir que estou conversando com dois amigos com opiniões opostas para poder refletir sobre os acontecimentos. Inventei Jamie e Cleve aos 12 anos para analisar minhas dúvidas. Quando eu estava em dúvida sobre algum assunto, eu fingia que Cleve tinha uma opinião, sempre a mais doce e favorável; e Jamie outra, sempre a mais machista e direta. Os dois me acompanharam desde então, representando duas facetas da minha própria personalidade. Até mesmo os nomes são corruptelas do meu, Maxwell James Cleveland. Estou velho para isso. Agora eu tenho alguém que me estima com quem conversar. Jamie e Cleve fazem parte da minha adolescência, e agora devo ser um adulto, universitário.

O mês seguinte passou como um foguete. Saí umas quatro ou cinco vezes com Mi, fomos ao cinema, comemos besteiras e etc. Um dia ela me levou à sua casa e me apresentou à família. Parecem gente boa, embora relativamente calados. Almocei com eles e depois ficamos jogando videogame com o irmão dela.

E agora falta apenas uma semana para o início das minhas aulas. Estou nervoso. Como será? Gostarei de desenvolver games? Será fácil? As pessoas do meu curso... será que serão legais? O que essa nova fase da vida me reserva?



(FIM DA PARTE I)

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